Quando a identidade encontra a biologia: o que ainda significa ser homem e ser mulher?

Respeitar pessoas não deveria exigir que abandonemos a realidade. E reconhecer a realidade não deveria nos autorizar a desrespeitar ninguém.

Talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja perceber que nem toda mudança de costume representa necessariamente um avanço.

Sociedades mudam. A linguagem muda. A moda muda. Comportamentos mudam. Aquilo que parecia impensável para uma geração pode se tornar absolutamente comum para a geração seguinte.

Isso faz parte da história humana.

O problema começa quando deixamos de perguntar se determinada mudança é boa, justa, coerente ou verdadeira, simplesmente porque ela passou a ser apresentada como moderna.

Há novidades que corrigem injustiças antigas.

Há mudanças que ampliam liberdades.

E há também exageros culturais que, com o tempo, talvez sejam lembrados exatamente como isso: exageros.

Por isso, talvez exista uma pergunta que nossa geração precisa reaprender a fazer:

Até onde devemos adaptar a realidade às percepções individuais, e em que momento a realidade precisa continuar sendo o limite?

Essa pergunta tornou-se especialmente importante quando falamos de homem, mulher, sexo biológico e identidade de gênero.

E ela precisa ser feita sem ódio.

Sem humilhação.

Sem transformar seres humanos em inimigos.

Mas também sem medo de falar sobre aquilo que a biologia continua dizendo.

Respeitar alguém não significa negar que sexo e gênero são coisas diferentes

Uma pessoa pode nascer do sexo masculino e, ao longo da vida, identificar-se socialmente como mulher.

Pode alterar o nome.

Pode mudar a maneira de se vestir.

Pode utilizar hormônios.

Pode modificar características corporais por meio de procedimentos médicos.

Pode construir sua vida social a partir de uma identidade feminina.

E essa pessoa continua merecendo dignidade, segurança, respeito e proteção contra violência.

Isso deveria ser elementar numa sociedade civilizada.

Mas existe outra afirmação que também pode ser feita sem insultar ninguém: identidade de gênero e sexo biológico não são exatamente a mesma coisa.

Nem mesmo a terminologia adotada pela Organização Mundial da Saúde trata os conceitos como sinônimos. A OMS diferencia sexo, relacionado a características biológicas e fisiológicas, como cromossomos, hormônios e órgãos reprodutivos, de gênero e identidade de gênero.

Na maioria das pessoas, o desenvolvimento sexual feminino está associado ao padrão cromossômico XX e o masculino ao XY, embora existam condições biológicas incomuns e diferenças do desenvolvimento sexual que tornam alguns casos mais complexos. A própria literatura médica registra essas exceções.

Reconhecer exceções, porém, não significa afirmar que não existam diferenças entre os sexos.

A exceção não destrói necessariamente a categoria.

É precisamente essa distinção que desaparece muitas vezes no debate contemporâneo.

A cirurgia pode modificar o corpo. Não pode reescrever toda a história biológica

Esse talvez seja um dos pontos em que precisamos trocar slogans por serenidade.

Uma mulher trans pode viver socialmente como mulher.

Pode apresentar características corporais feminilizadas.

Pode ser reconhecida juridicamente como mulher.

Tudo isso pertence ao debate social, médico e jurídico contemporâneo.

Mas determinados processos biológicos continuam relacionados à anatomia reprodutiva.

Uma pessoa que nasceu com sistema reprodutivo masculino e não possui ovários e útero funcionais não passa, apenas pela identidade de gênero, a ovular, menstruar ou engravidar.

Da mesma forma, a alteração hormonal não apaga automaticamente todas as características adquiridas durante uma puberdade masculina.

Dizer isso não deveria ser considerado uma agressão. É descrição biológica.

O erro surge quando transformamos biologia em instrumento de humilhação.

Mas surge outro erro quando, com receio de ofender, fingimos que a biologia deixou de existir.

Entre crueldade e negação existe uma terceira possibilidade: verdade com respeito.

Talvez esse seja justamente o princípio cristão que esquecemos

Uma visão cristã conservadora não deveria começar pelo desprezo. Deveria começar pela dignidade.

Se acreditamos que todo ser humano possui valor diante de Deus, não faz sentido defender princípios cristãos utilizando humilhação, escárnio ou violência contra quem pensa ou vive de maneira diferente.

Cristo não nos autorizou a odiar quem discorda de nós.

Mas o cristianismo também nunca ensinou que amar significa abandonar convicções.

O texto de Gênesis apresenta a humanidade como criada "homem e mulher", e Jesus retoma essa linguagem em Mateus 19.

Ao mesmo tempo, o mandamento de amar o próximo não contém uma cláusula dizendo que devemos amar somente aqueles que compartilham nossos valores.

É justamente aí que está a dificuldade.

Convicção sem amor pode virar brutalidade.

Amor sem convicção pode virar simples desejo de aprovação.

Talvez o desafio cristão esteja em não escolher nenhum dos extremos.

Quando a discussão deixa a vida particular e entra nas instituições

Durante muito tempo, a questão da identidade de gênero esteve principalmente relacionada à vida pessoal.

Como determinada pessoa prefere ser chamada? Como deseja se vestir? Como pretende viver sua vida?

Uma sociedade livre pode acomodar muitas dessas escolhas.

Mas algo muda quando o debate deixa de tratar somente da liberdade individual e começa a definir categorias coletivas, políticas públicas, competições esportivas e instituições criadas especificamente em razão do sexo.

É nesse ponto que surge uma pergunta muito mais complexa: identificar-se como mulher significa automaticamente possuir a mesma experiência biológica de ter nascido mulher?

Para determinadas correntes progressistas, a identidade de gênero é suficiente para o reconhecimento social da pessoa como mulher.

Para a tradição conservadora, especialmente a cristã, existe uma distinção entre reconhecer a identidade social de alguém e redefinir completamente a categoria sexual feminina.

Essa divergência explica boa parte das discussões que parecem incompreensíveis quando observadas apenas pelas manchetes.

O caso Erika Hilton e uma pergunta maior que uma pessoa

Em 11 de março de 2026, a deputada Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, recebendo 11 votos, enquanto dez parlamentares votaram em branco. A própria Câmara a identifica como a primeira mulher trans a presidir o colegiado.

Para Hilton, sua eleição simboliza ampliação da participação democrática. Em seu discurso de posse, afirmou que sua gestão trabalharia pelos direitos das mulheres.

Há quem enxergue nesse episódio uma conquista histórica de inclusão.

Mas existe também uma objeção conservadora que não precisa ser construída sobre insultos. Ela pode ser apresentada como pergunta: uma comissão criada especificamente para a defesa das mulheres deve entender "mulher" principalmente como identidade de gênero ou como categoria relacionada ao sexo feminino?

Essa é a verdadeira discussão.

Não se trata de negar que Erika Hilton possua mandato parlamentar.

Não se trata de negar seus direitos civis.

Não se trata sequer de negar sua identidade de gênero.

A questão é outra: qual é o critério para representar uma categoria criada historicamente justamente porque pessoas do sexo feminino enfrentaram problemas relacionados à própria condição feminina?

Gravidez. Maternidade. Menstruação. Violência sexual. Diferenças fisiológicas. Saúde ginecológica. Mortalidade materna. Discriminação ligada à maternidade.

Essas questões não nasceram de uma identidade social abstrata. Possuem também dimensão corporal.

É possível defender direitos das pessoas trans e, simultaneamente, perguntar se determinadas instituições precisam preservar critérios ligados ao sexo.

As duas conversas não são necessariamente incompatíveis.

Nikolas Ferreira transformou essa contradição em confronto

O deputado Nikolas Ferreira tornou-se uma das vozes mais conhecidas dessa contestação.

Quando Erika Hilton foi escolhida para presidir a comissão, ele republicou o discurso no qual afirmara que "mulheres estão perdendo seu espaço para homens que se sentem mulheres" e posteriormente defendeu resistência parlamentar à escolha.

Pode-se concordar ou discordar do estilo de Nikolas. Pode-se considerar sua retórica provocativa demais.

Mas existe uma pergunta por trás da provocação que continuará existindo mesmo quando Nikolas, Erika e todos os personagens atuais tiverem deixado o noticiário: o que define uma categoria feminina?

Essa pergunta não pertence a um partido. Pertence ao século XXI.

Michelle Bolsonaro representa outra vertente desse debate

Michelle Bolsonaro discursando em evento público, microfone na mão
Michelle Bolsonaro em manifestação pública sobre sua visão de representação feminina.

Michelle Bolsonaro não precisa ser transformada em personagem central deste artigo, mas ajuda a compreender uma parcela significativa das mulheres conservadoras brasileiras.

Em manifestações públicas, ela já definiu sua proposta como uma política "feminina e não feminista" e afirmou que mulheres não precisam estabelecer uma relação de competição permanente com os homens. Também tem feito críticas ao que denomina "ideologia de gênero".

É uma concepção particular de feminilidade. Outras mulheres discordam profundamente dela. E isso também precisa ser permitido.

Talvez uma das ironias da discussão moderna sobre a mulher seja imaginar que exista apenas uma maneira legítima de ser mulher.

A empresária pode ser mulher. A dona de casa pode ser mulher. A militar pode ser mulher. A executiva pode ser mulher. A mãe de oito filhos pode ser mulher. A mulher que não deseja filhos pode ser mulher. A atleta pode ser mulher. A professora pode ser mulher.

Ser conservadora também não deveria retirar de alguém sua condição feminina. E ser progressista não deveria conceder a alguém monopólio sobre a definição da mulher.

A verdadeira pluralidade começa quando mulheres podem discordar umas das outras sem que uma tente retirar a legitimidade da outra.

E então chegamos ao esporte

Sophie Cunningham, jogadora da WNBA, em quadra durante partida
Sophie Cunningham, do Indiana Fever, tornou-se uma das vozes mais conhecidas nesse debate dentro do esporte.
Sophie Cunningham, jogadora da WNBA, posando com uma bola de basquete
Sophie Cunningham defende, em suas próprias palavras, respeito e cautela ao mesmo tempo.

Talvez nenhuma área torne essa discussão tão concreta quanto o esporte.

Dentro de uma rede social podemos discutir conceitos durante horas. Dentro de uma quadra, centésimos de segundo, centímetros, potência, massa muscular e força mudam resultados.

A jogadora Sophie Cunningham, do Indiana Fever, da WNBA, tornou-se uma das atletas mais conhecidas por levantar essa discussão.

Depois de receber críticas por suas posições, Cunningham afirmou que não odeia pessoas trans e que sua preocupação está em proteger meninas e mulheres no esporte. Ela disse defender amor e respeito, mas também considerar necessário falar sobre diferenças biológicas.

Sua posição ganhou ainda mais relevância porque o problema não é apenas teórico.

A fisiologia esportiva reconhece diferenças médias importantes entre homens e mulheres após a puberdade. Um consenso publicado pelo American College of Sports Medicine aponta que, em modalidades dependentes de força, potência, velocidade e resistência, homens adultos apresentam em média vantagens de desempenho que variam conforme o esporte.

Mas aqui também é preciso ser intelectualmente honesto.

A literatura sobre atletas trans ainda está em evolução.

Há trabalhos mostrando persistência de algumas características físicas após terapia hormonal. Há também uma meta-análise publicada em 2026 que encontrou medidas de aptidão física semelhantes entre mulheres trans submetidas a tratamento hormonal e mulheres cis em vários indicadores, embora os próprios pesquisadores tenham classificado boa parte das evidências como de baixa ou muito baixa certeza.

Ou seja: não precisamos mentir sobre a ciência para defender cautela.

Ainda existem dúvidas. E justamente porque estamos falando de medalhas, carreiras e categorias criadas para garantir oportunidades às mulheres, cautela deveria ser legítima.

Em 30 de junho de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que escolas podem utilizar o sexo biológico para determinar elegibilidade nas equipes femininas, entendendo que objetivos de segurança e equidade esportiva podem justificar a manutenção dessas categorias. A decisão tratou dos casos de West Virginia e Idaho.

Independentemente de concordar ou não com a decisão, ela demonstra que a questão deixou de ser apenas uma guerra de comentários na internet.

Entrou definitivamente no direito, no esporte e nas instituições.

Representar alguém exige mais do que pronunciar a palavra "representatividade"

E talvez aqui possamos recuperar uma ideia importante.

Representar alguém exige proximidade com sua realidade.

Não significa que somente quem sofreu determinado problema possa ajudar a resolvê-lo.

Um médico não precisa ter câncer para tratar câncer. Um parlamentar não precisa ter sido assaltado para elaborar uma lei de segurança.

Um homem pode lutar pelos direitos das mulheres. Uma mulher pode lutar pelos direitos dos homens. Uma pessoa heterossexual pode defender homossexuais. Uma pessoa cisgênero pode defender pessoas trans.

Representação política nunca funcionou como identidade absoluta.

Mas existe diferença entre defender alguém e afirmar que todas as diferenças entre representante e representado deixaram de existir.

É aí que a discussão se torna interessante.

Talvez os melhores critérios continuem sendo aqueles que não mudam conforme a moda: coerência entre discurso e prática, capacidade de escutar, conhecimento da realidade e resultados concretos.

Porque visibilidade não é necessariamente representação.

Viralização não é resultado.

E repetir a palavra "inclusão" não resolve automaticamente todos os conflitos entre direitos.

O perigo de transformar qualquer discordância em ódio

Existe ainda uma consequência preocupante dessa discussão.

Quando alguém diz que uma mulher trans merece respeito, algumas pessoas imediatamente concluem que essa pessoa está negando a biologia.

Quando alguém diz que sexo biológico importa, outras imediatamente concluem que essa pessoa odeia pessoas trans.

Esse raciocínio elimina qualquer possibilidade de conversa.

É perfeitamente possível dizer: "Eu respeito você." E continuar: "Mas discordo da sua interpretação sobre determinada categoria."

Uma democracia precisa ser capaz de suportar essa frase.

Do contrário, deixamos de defender respeito e começamos a exigir concordância. E são coisas diferentes.

Nem toda fronteira é discriminação

Banheiros, prisões, esporte, medicina, estatísticas públicas, políticas destinadas às mulheres e determinados serviços de saúde foram construídos levando em consideração diferenças sexuais.

Algumas dessas regras poderão mudar. Outras talvez precisem permanecer.

Mas simplesmente perguntar sobre essas fronteiras não deveria tornar alguém automaticamente cruel, atrasado ou preconceituoso.

Da mesma maneira, uma pessoa trans não deveria ser tratada como ameaça apenas por existir.

Uma sociedade madura deveria ser capaz de sustentar simultaneamente duas ideias: pessoas merecem dignidade; categorias podem precisar de limites.

O que acontece quando cada geração redefine palavras fundamentais?

Grupo de mulheres brasileiras de diferentes gerações, da infância à velhice, caminhando juntas em frente ao Congresso Nacional em Brasília
Da infância à velhice, mulheres de todas as idades caminham em frente às instituições que dizem representá-las. A pergunta que fica é: representam de verdade?

Talvez essa seja a questão mais profunda.

Palavras não servem apenas para descrever o mundo. Elas organizam o pensamento.

Pai. Mãe. Homem. Mulher. Menino. Menina. Família.

Quando modificamos o significado dessas palavras, modificamos também a maneira como interpretamos a sociedade.

Algumas mudanças linguísticas são necessárias. Outras precisam ser examinadas.

Porque existe uma diferença entre ampliar nossa capacidade de compreender pessoas e tornar palavras tão abrangentes que elas deixam de explicar qualquer coisa.

Se toda definição puder ser alterada apenas pela autopercepção, surge uma pergunta filosófica inevitável: a realidade define nossa identidade ou nossa identidade passa a definir a realidade?

Talvez grande parte do conflito contemporâneo esteja escondida nessa pergunta.

Uma posição conservadora não precisa ser uma posição cruel

Há pessoas que acreditam sinceramente que reconhecer integralmente a identidade de gênero é uma questão de dignidade humana. Essa visão precisa ser ouvida.

Há também pessoas que acreditam sinceramente que apagar as diferenças entre sexo e gênero enfraquece direitos conquistados pelas mulheres. Essa visão também precisa poder ser expressa.

A posição conservadora apresentada aqui parte de uma premissa simples: podemos respeitar profundamente a pessoa sem concluir que identidade e realidade biológica sejam exatamente a mesma coisa.

Uma mulher trans merece respeito. Um homem trans merece respeito. Uma pessoa homossexual merece respeito. Uma pessoa heterossexual merece respeito. Uma pessoa que discorda da transição de gênero por motivos religiosos também merece respeito.

A civilização começa exatamente quando conseguimos viver ao lado de pessoas com as quais discordamos profundamente.

O teste do tempo

Talvez daqui a cinquenta anos nossa geração olhe para trás e perceba que acertamos em muitas coisas. Talvez perceba também que exageramos em outras.

Foi assim com praticamente todas as gerações anteriores.

Por isso, antes de aceitar qualquer mudança simplesmente porque ela se apresenta como progresso, vale fazer algumas perguntas.

Estamos aumentando a dignidade das pessoas? Estamos preservando a liberdade? Estamos protegendo os mais vulneráveis? Estamos sendo justos?

Estamos permitindo que mulheres continuem possuindo espaços próprios quando diferenças biológicas forem relevantes? Estamos respeitando pessoas trans sem exigir que toda a sociedade abandone qualquer distinção baseada no sexo?

E principalmente: estamos buscando a verdade ou apenas tentando permanecer do lado socialmente mais confortável da discussão?

Porque modas passam. Governos passam. Políticos passam. Hashtags desaparecem.

Aquilo que hoje parece revolucionário amanhã poderá parecer óbvio, ou absurdo.

Mas algumas perguntas acompanham a humanidade há milhares de anos.

Quem somos? De onde vem nossa identidade? Até onde vai nossa liberdade? O que devemos uns aos outros? E existe alguma realidade maior do que aquilo que sentimos sobre nós mesmos?

Uma visão cristã responderá que sim. Existe verdade acima de nós. Existe criação antes de nós.

E existe também um mandamento que não podemos abandonar enquanto defendemos essa verdade: amar o próximo.

Talvez o equilíbrio de que nossa época mais precise esteja justamente aí.

Não precisamos escolher entre verdade e respeito. Podemos defender os dois.

E talvez seja exatamente isso que significa permanecer humano em uma época na qual praticamente tudo parece estar sendo redefinido.

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