Vitrine de joias de ouro no mercado de Deira, em Dubai, onde Joaquim pediu a esposa em casamento
O mercado de Deira, em Dubai: o cenário do pedido de casamento.

Eu estava dentro de uma loja de ouro no mercado de Deira, em Dubai, com um solitário na mão escondido. Não tinha ensaiado nada. Só senti que aquele era era o momento. Ajoelhei ali mesmo, entre vitrines cheias de peças que pareciam ter saído de um conto das Mil e Uma Noites, e pedi minha esposa em casamento. Ela se encheu de emoção, me pegou pelas mãos, disse sim e me beijou. Ela demorou um segundo para entender o que estava acontecendo, foi tudo muito emocionante. Os funcionários da loja entenderam antes dela. Todo mundo começou a rir e aplaudir. Ela olhou em volta, meio perdida, e só depois caiu a ficha. Foi muito divertido.

Guardo essa cena como um dos melhores momentos da minha vida. E ela resume bem o que essas décadas de estrada me ensinaram. Viajar não é sobre carimbo no passaporte. É sobre os momentos que a gente só vive porque estava lá, fora de casa, com a guarda baixa.

Comecei a viajar em 1992. Em 2002 comecei a sair do país. De lá pra cá, perdi as contas de quantas vezes fiz as malas. Já pisei em muitos países, Estados Unidos, Portugal, França, Itália, Espanha, Emirados Árabes, Catar, Turquia, Bélgica, Argentina, Peru, Chile, Paraguai, Andorra, Mônaco, Panamá, é o que me vem a mente agora. A maioria dessas viagens teve uma característica curiosa. Eu ia a trabalho, e sempre que podia, estendia a estadia por mais um tempo, viajando por minha conta e risco, mochila nas costas, sem roteiro, sem planos, somente uns dias, e o desejo de explorar, ver lugares que só conhecia pela TV ou nos livros de história e geografia, ver o mundo pelos meus olhos, tocar, sentir.

Vitrine com colares, pulseiras e brincos de ouro em uma joalheria de Dubai
Vestido e véu totalmente cobertos de joias de ouro em exposição no mercado de Deira
O ouro em Dubai não é só joia: é espetáculo.

O empresário, a Ferrari e a ideia que quase deu certo

Joaquim sorrindo em frente ao autódromo Yas Marina, em Abu Dhabi, com uma Lamborghini verde e uma Ferrari branca ao fundo
No autódromo de Fórmula 1 de Yas Marina, em Abu Dhabi.

Uma das minhas histórias favoritas de negócio nasceu de uma cena banal, coisa de filme mesmo. Um grande empresário tentou alugar uma Ferrari nos Estados Unidos e o cartão dele não passou. E não passou porque não tinha uma anotação, de locação de carros exóticos. Deu problema na hora, foi constrangedor, e ele ficou furioso. Pensa num cabra valente, ele disse horrores, chegou a ser mal educado. Saiu tão furioso que foi embora, direto para uma loja da Ferrari, e choquem, comprou uma Ferrari à vista. E como se não bastasse, voltou até a porta da locadora que tinha negado o carro pra ele, e se exibiu na frente da locadora. Desnecessário, mas.

Eu vi naquilo uma oportunidade onde a maioria só teria visto um cliente irritado, querendo se mostrar, se aparecer. Imagina, se um empresário reagia assim por causa de um carro, quantos brasileiros de passagem pelos Estados Unidos pagariam para dirigir um carro exótico, uma Ferrari, uma McLaren, uma Lamborghini, ate um Porsche, ter um carro destes em suas mãos por um dia, e tudo isso, sem passar pela dor de cabeça que aquele empresário passou? Montei a operação, abri a empresa, fui atrás de carros de luxo exóticos para comprar, naquela época os juros para este tipo de veiculo era de 7,5% a 10,5% ao ano, e financiados em ate 120 meses. Só que na hora de executar esbarrei numa parede que ninguém me mostrou antes. Cobrar o serviço no Brasil, e executar, operar nos Estados Unidos, na época, virava uma bagunça tributária e burocrática. O que parecia barato no papel ficou caro demais na prática. O sistema destruiu meu sonho, e jogou por terra uma ideia.

Lamborghini verde e Ferrari branca estacionadas lado a lado em Yas Marina, Abu Dhabi
Casal ao lado de uma Lamborghini verde na estrada do deserto entre Dubai e Abu Dhabi
O trajeto de Dubai a Abu Dhabi, atravessando o deserto.

Não época foi triste, aprendi uma lição. Boa ideia não é suficiente. Execução importa, planejamento importa, e questões tributarias, são essenciais, e às vezes o cenário legal e tributário decide antes de você.

Anos depois numa viagem a Dubai, loquei uma Lamborghini, fiz o trajeto de Dubai a Abu Dhabi, é uma experiência única dirigir pelo deserto. No autódromo de Fórmula 1 em Abu Dhabi, o Yas Marina, testamos todos os cavalos destas máquinas, eu de Lamborghini, meu parça de Ferrari, só desacelerei, quanto o marcador passou dos 300. Nada demais, mas o suficiente para entender por que aquele empresário ficou tão bravo com um cartão recusado.

Ferrari branca e Lamborghini verde em movimento numa via com um food truck ao fundo
Testando os cavalos das duas máquinas.

O que a gestão de risco me ensinou sobre discrição

Trabalhei durante anos com consultoria em gestão empresarial e pessoal, e isto envolvia gestão de risco. Minha função era simples de explicar e difícil de viver. Eu ia a campo verificar se pessoas, empresas e operações eram reais. Se existia lastro por trás do que estava sendo ofertado a pessoas e empresas.

Esse trabalho me levou a lugares e situações que hoje soam quase de filme. Já fui retido para averiguação em Dubai, em Milão, sempre por protocolo, nunca por problema real com nenhuma autoridade. Vivi momentos tensos no Catar, estava no tradicional mercado de Souq Waqif, jantando, quando uma multidão invadiu o mercado, era uma manifestação, eles cantavam e gritavam, foi tenso, mas terminou tudo bem. Sempre precisava assinar contratos de sigilo/confidencialidade, situações que envolviam pessoas com alguma exposição pública. Coisas que não posso entrar em detalhes, e nem quero, porque discrição sempre foi a regra do jogo. Era uma época em que ninguém tinha o hábito de fotografar tudo, o que hoje parece impossível de imaginar.

O que ficou dessa fase não foram as histórias que não posso contar. Foi o hábito de observar antes de confiar. Verificar antes de acreditar. Essa mentalidade me acompanha até hoje, em qualquer negócio.

Giverny, o Monet e a viagem que virou livro

Nem toda viagem foi sobre negócio ou adrenalina. Uma das que mais me marcou foi quando estive em Giverny. Na casa e estúdio de Claude Monet, caminhando por seus jardins e lagos, me senti inspirado a escrever sobre sua vida e obra, e foi muito legal. A pesquisa para o livro me fez atravessar a ponte japonesa do seu jardim, e imaginar tantas coisa que ele viu e pintou ali. A ponte, é a mesma que aparece em tantas das suas telas mais famosas, numa das fotos, você vai vê-la, estou com minha esposa, de boina vermelha. Percorri museus atrás de pistas sobre a vida dele, tentando entender não só o pintor, mas o homem por trás da obra.

Joaquim e a esposa abraçados na ponte japonesa do jardim de Monet, em Giverny
Na ponte japonesa do jardim de Monet, com minha esposa, de boina vermelha.
Selfie do casal na ponte japonesa do jardim de Monet, em Giverny
A mesma ponte que aparece em tantas das suas telas mais famosas.
Capa do livro Os Segredos Espirituais de Monet, de Joaquim Carvalho
O livro que nasceu da viagem a Giverny. Ver na Amazon →

Essa viagem me ensinou algo que uso até hoje quando escrevo. Para contar bem a história de alguém, você precisa pisar onde essa pessoa pisou. Ler sobre um lugar nunca substitui estar nele. Este livro esta hoje a disposição na Amazon.

Meia-noite com sol, paella e uma ilha no fim do mundo

Tem viagens que ficam pela paisagem e viagens que ficam pela sensação. Em Madrid, andei pelas ruas à meia-noite com o sol ainda no céu, um fenômeno que eu já sabia que existia, mas que só fez sentido de verdade quando vivi, ver as pessoas na rua, crianças brincando, idosos caminhando, sorrindo, uma sensação boa demais. Já em Barcelona, comi uma paella que até hoje uso como régua para comparar qualquer outra.

E teve uma viagem que foge de qualquer roteiro convencional. Fiquei hospedado no hostal Aleta Negra, na Ilha Robinson Crusoe, no Chile, um pedaço de terra isolado no meio do Pacífico, batizado por causa da história que inspirou o romance de Daniel Defoe. Lá, fizemos a pesca em alto mar, peguei peixes enormes, e isso não é história de pescador não. Não teve internet boa, não teve luxo, teve só o essencial. E foi uma das viagens que mais recomendo para quem quer sentir o mundo de verdade.

Joaquim segurando um peixe grande pescado em alto mar na Ilha Robinson Crusoe, Chile
Pesca em alto mar na Ilha Robinson Crusoe, Chile.

Falcões, ouro em máquina de vender e outras curiosidades do Golfo

Joaquim segurando um falcão no hospital de falcões do Souq Waqif, no Catar
No hospital de falcões do Souq Waqif, no Catar.
Movimento noturno no mercado de pássaros do Souq Waqif, no Catar, com gaiolas cheias de pássaros
O mercado de pássaros do Souq Waqif, à noite.

Uma das partes que mais gosto de contar sobre o Oriente Médio são as curiosidades que ninguém espera. No Catar, visitei o hospital de falcões do Souq Waqif e descobri que existe um mercado milionário inteiro girando em torno desses animais, tratados como membros da família em muitas casas. Em Dubai, testei uma máquina de vender ouro, literalmente um caixa eletrônico que solta uma barrinha em vez de dinheiro. Fiz por curiosidade e saí de lá com a prova física de que tinha usado aquilo.

São essas pequenas histórias que fazem uma viagem virar conversa de anos depois.

O hábito que carrego em toda cidade

Joaquim e a esposa em frente à Torre Eiffel, às margens do Sena, em Paris
Às margens do Sena, com a Torre Eiffel de fundo.
Casal observando a Torre Eiffel de um mirante em Paris

Tem um ritual que faço em praticamente todo lugar que visito, dentro do possível. Calço o tênis e saio para correr. Já corri em cidades e paisagens que a maioria só vê em foto, e essa é uma forma de sentir o lugar de um jeito que nenhum passeio turístico entrega. Você correr as margens do Sena, com a Torre Eiffel de fundo, no deserto ladeado por praias artificias e prédios gigantescos em Dubai, passar por areias calmas da praia de Carneiros, e os jardins da Universal em Orlando. Também aproveito para, em cada lugar diferente, mesmo que só por um instante, agradecer. Respeito profundamente a fé e as tradições de cada canto que visito, mas carrego a minha com igual respeito, e faço questão de dar esse instante de gratidão onde quer que eu esteja.

O que vem depois dos carimbos

Reunindo essas histórias para escrever este texto, percebi uma coisa. Como andar pelo mundo é bom, como conhecer outras culturas, outros locais, e pessoas, é maravilhoso. Cada viagem me deu algo diferente. Umas me deram negócios, outras me deram discrição, outras me deram um livro, e uma delas o sorriso mais belo de minha esposa, como noiva, ali no mercado de Deira. Nenhuma delas foi só turismo ou negócios, e esse mix, faz a vida vibrar, dá sentido as coisas.

Estou organizando esse material todo, junto com o mapa dos lugares que já visitei, para trazer aqui no blog uma seção inteira dedicada a viagens, misturando essas histórias com o olhar prático que vocês já conhecem daqui do Mente e Bolso. E, mais pra frente, pretendo transformar tudo isso num guia de viagens completo, pensado para quem quer viajar rodando o mundo, mas sem cometer os erros que eu cometi pelo caminho.

Se tem um país ou uma cidade que você sempre quis visitar e não sabe por onde começar, deixa nos comentários. Talvez a próxima história daqui seja sobre esse lugar.

Joaquim sorrindo usando um lenço tradicional árabe (kufiya) e fazendo sinal de paz
Mais um destino, mais um sorriso.
Casal caminhando à noite por um jardim de palmeiras iluminadas em um resort no Oriente Médio
Chegando a mais um hotel, em mais uma cidade.
Esposa de Joaquim posando ao lado de letras gigantes formando a palavra VOCO, numa praia
Um dos muitos destinos ainda por contar aqui no blog.

Esse texto fez você pensar em alguém?

Às vezes um texto não muda a nossa vida sozinho, ele só chega no momento certo, para a pessoa certa. Se foi isso que aconteceu agora, não deixe só na lembrança: envie para a primeira pessoa que vier à sua cabeça, ou para quem você sente que precisa ler isso hoje. Um compartilhamento simples pode ser exatamente o empurrão que faltava para alguém.